A  professora

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Quarta-feira, Novembro 10, 2004

Ponto de vista: Claudio de Moura Castro*

A vovó na janela

"Cada sociedade tem a educação que quer. A nossa é péssima, antes de tudo, porque não fazemos a nossa parte."

Em uma pesquisa internacional sobre aprendizado de leitura, os resultados da Coréia pareciam errados, pois eram excessivamente elevados. Despachou-se um emissário para visitar o país e checar a aplicação. Era isso mesmo. Mas, visitando uma escola, ele viu várias mulheres do lado de fora das janelas, espiando para dentro das salas de aula. Eram as avós dos alunos, vigiando os netos, para ver se estavam prestando atenção nas aulas.

A obsessão nacional que leva as avós às janelas é a principal razão para os bons resultados da educação em países com etnias chinesas. A qualidade do ensino é um fator de êxito, mas, antes de tudo, é uma conseqüência da importância fatal atribuída pelos orientais à educação.

Foi feito um estudo sobre níveis de stress de alunos, comparando americanos com japoneses. Verificou-se que os americanos com notas muito altas eram mais tensos, pois não são bem-vistos pelos colegas de escolas públicas. Já os estressados no Japão eram os estudantes com notas baixas, pela condenação dos pais e da sociedade.

Pesquisadores americanos foram observar o funcionamento das casas de imigrantes orientais. Verificou-se que os pais, ao voltar
para casa, passam a comandar as operações escolares. A mesa da sala transforma-se em área de estudo, à qual todos se sentam, sob seu controle estrito. Os que sabem inglês tentam ajudar os filhos. Os outros - e os analfabetos - apenas vigiam. Os pais não se permitem o luxo de outras atividades e abrem mão da TV. No Japão, é comum as mães estudarem as matérias dos
filhos, para que possam ajudá-los em suas tarefas de casa.

Fala-se do milagre educacional coreano. Mas fala-se pouco do esforço das famílias. Lá, como no Japão, os cursinhos preparatórios
começam quase tão cedo quanto a escola. Os alunos mal saem da aula e têm de mergulhar no cursinho. O que gastam as famílias pagando professores particulares e cursinhos é o mesmo que gasta o governo para operar todo o sistema escolar público.

Esses exemplos lançam algumas luzes sobre o sucesso dos países do Leste Asiático em matéria de educação. Mostram que tudo começa com o desvelo da família e com sua crença inabalável de que a educação é o segredo do sucesso. Países como Coréia, Cingapura e Taiwan não gastam muito mais do que nós em educação. A diferença está no empenho da família, que turbina o esforço dos filhos e força o governo a fazer sua parte.

É curioso notar que os nipo-brasileiros são 0,5% da população de São Paulo. Mas ocupam 15% das vagas da USP. Não obstante, seus antepassados vieram para o Brasil praticamente analfabetos.

Muitos pais brasileiros de classe média achincalham nossa educação. Mas seu esforço e sacrifício pessoal tendem a ser ínfimos. Quantos deixam de ver TV para assegurar-se de que seus pimpolhos estão estudando? Quantos conversam freqüentemente com os filhos? As pesquisas mostram que tais gestos têm impacto enorme sobre o desempenho dos filhos. Se a família é a primeira linha de educação e apoio à escola, que lições estamos dando às famílias mais pobres?

O Ministério da Saúde da União Soviética reclamava contra o
Ministério da
Educação, pois julgava que o excesso de horas de estudo
depois da escola e
nos fins de semana estava comprometendo a saúde da
juventude. Exatamente a
mesma queixa foi feita na Suíça.

No Brasil, uma pesquisa recente em escolas particulares de
bom nível mostrou
que os alunos do último ano do ensino médio disseram
dedicar apenas uma hora
por dia aos estudos - além das aulas. Outra pesquisa
indicou que os jovens
assistem diariamente a quatro horas de TV. Esses são os
alunos que dizem
estar se preparando para vestibulares impossíveis.

Cada sociedade tem a educação que quer. A nossa é péssima,
antes de tudo,
porque aceitamos passivamente que assim seja, além de não
fazer nossa parte
em casa. Não podemos culpar as famílias pobres, mas e a
indiferença da
classe média? Está em boa hora para um exame de
consciência. Estado, escola
e professores têm sua dose de culpa. Mas não são os únicos
merecendo puxões
de orelha.

*Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

VEJA Edição 1879
10 de novembro de 2004

Postado por JULIANA FERREIRA às 8:50 AM
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